terça-feira, 18 de julho de 2017

DO LADO ERRADO DA CAMA

Hoje eu acordei do lado errado da cama e você estava lá. Por uns segundos não reconheci meu quarto. Deitada nos pés da cama, uma luz acesa na minha cara, as janelas abertas, minha vida aberta, puta merda! Meu caos escapou pelas minhas frestas e ocupou todo o lugar.
Eu teria fugido se pudesse.
Fechei os olhos de novo. Tantas coisas pra perguntar, tanta coisa pra te dizer. Mas você estava me olhando com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.
Coloquei todas as palavras em um canto qualquer. Te olhei. Não fugi.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O FIM EM VÁRIAS PARTES - O SHOW NÃO VAI CONTINUAR

E lá fui eu mais uma vez de encontro ao nada. Da primeira vez a gente nem sente, nem se percebe queimar e virar cinzas.
Mas não fica mais fácil com o tempo.
Cair e levantar. Não vejo nenhuma graça em nada disso. Com o tempo toda esse esquema de bater no fundo do poço e depois me fuder para subir perdeu o sentido.
Eu tava cansada e quase ninguém via e ainda tinha claro a torcida. Deixa eu te falar da torcida. Aquelas pessoas que ficam realmente tocadas com a sua história eletrizante de sexo drogas e fundo de poço e acompanham ávidas pelo grande momento de virada.
Eu tive torcida, opa se tive. E por um tempo essa relação de me abrir com o outro e só encontrar curiosidade funcionou perfeitamente. Todos ficavam satisfeitos: eu por mais uma vez ser um cliché de superação e a torcida por poder agradecer em suas orações por não ter uma vida como a minha.
Mas não dessa vez, agora a torcida tinha parado de acompanhar esse seriado de merda. PORQUE NÃO TEVE PONTO DE VIRADA AMORES.
Eu parei de me debater, semana após semana eu fui me entregando à inércia. Minha cabeça pensava alucinadamente mas meu corpo se mantinha parado por horas. Suando frio, fumando um cigarro atrás do outro. Sabia que estava desperdiçando minha vida ali encolhida em cadeira da cozinha. A torcida parou de assistir e se retirou. O show acabou.
Silêncio, no hay banda.
Eu tava sozinha.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O FIM EM VÁRIAS PARTES - A PRIMEIRA SEMANA

O fracasso estava ali na sala quando eu acordei na segunda feira, em um letreiro de neon. Piscando sem parar: perdedora, bam, bam, bam, perdedora, bam, bam, bam. E então eu me levantava fazia café, cuidava da minha filha durante todo o dia, trabalhava, ouvia uma porrada de ofensas: “ingrata, insensível, maldita, vingativa, louca, puta, mãe de merda, interesseira, velha, feia”, ia para a faculdade, desabafava, voltava para casa cheia de conselhos para mais uma rodada de brigas. Perdedora, bam, bam, bam, perdedora, bam, bam, bam. Não me lembro de como dormia e nem o que comi durante essa semana.
Meu casamento foi uma forma de eu existir pelos olhos do outro, de ser alguém. Uma forma muito estranha de me legitimar na vida magicamente. Fui aparando todas as minhas quinas para caber naquele espaço, tudo que era demais para ele lidar: um sonho que não sonhava mais, uma vontade que era esquecida, uma música de não ouvia, uma roupa que eu não usava, uma amiga que eu não falava. Eu estava sumindo e não queria seguir em frente, muito menos ficar feliz. 
Uma semana depois do fim eu queria estar exatamente onde estava, não queria me animar, arrumar outro emprego, nem colocar minha filha na escola, não queria parar de fumar, nem mesmo comer bem, não queria superar merda nenhuma.
Naquele dia eu sentei na cozinha e fui infeliz, chorei, reclamei, duvidei da vida, da minha sanidade, perdi a fé em mim mesma. Eu, a tristeza, o medo, a morte e a loucura tomamos um café da manhã, porque era domingo de sol, mas eu estava triste. Quis chorar todas as dores passadas, todas as surras e os insultos, todas as perdas que eu nunca tinha chorado. Chorei pelos meus lutos, pelos dias de solidão completa. Reverenciei a tristeza da Mariana criança, da mulher. 
Listei tudo o que me foi negado e olhei para tudo o que eu tinha. Não me movi um milímetro para longe de toda aquela destruição que havia em mim, queria saborear a conquista de me sentir realmente humana e um lixo. Naquele dia não dei a volta por cima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O FIM EM VÁRIAS PARTES - MARIANA NÃO QUER SER SALVA


Nunca passei tanto tempo tentando tomar uma decisão, nada testou mais minha sanidade. Cada dia era um eterno exercício impossível de tentar prever o futuro, de controlar o que nem existia ainda.
Repassei mentalmente tudo que eu gostaria de dizer quando o momento chegasse, O momento, o dia D, quando eu finalmente colocaria um ponto final em tudo. Adiei esse momento, alonguei o prazo, cancelei, me arrependi, esperei por uma merda de um milagre enquanto passava as tardes chorando na cozinha.
Idealizei as falas, o lugar, idealizei um fim que me parecia correto, o fim dos livro da Martha Medeiros. Merda! É pedir muito? Um fim emotivo, claro, um fim bonito para coroar uma história tão bonita quanto, um fim com luzes baixas e cheio de sussurros de pedidos de desculpas e promessas de compreensão eternas. Tudo minimamente calculado, pensado, revisto, tudo sob controle.
Domingo, dia dos pais, a mesma tensão de sempre, mas eu tinha o controle, eu tinha ponderado tudo, as malas da viagem na sala, todas as luzes do apartamento acesas, os gatos miando, muita bagunça em mim, na sala, nossa filha brincando, mas eu tinha tudo organizado, vai dar tudo certo, calma, calma, respira.
Eu estou lavando a louça, olhando meu reflexo no azulejo enquanto ele fala, eu falo, o apartamento é pequeno, mas não conseguimos nos ouvir. Ele vem a todo momento até a cozinha para repetir, ele fala, eu falo, não é uma conversa, nunca é, faz muito tempo que apenas gritamos cada vez mais alto e incrivelmente ficamos mais surdos. Meu coração batendo na garganta.
E eu disse de uma vez: “quero me separar, não te amo mais”. Soou falso, ensaiado, ridículo e eu queria colocar aquelas merdas de novo na boca e continuar a lavar a porra do copo. Não me lembro da resposta, só dos lábios dele se mexendo, treze anos juntos, a história perfeita, salvamos um ao outro, dois perdidos numa noite suja, as viagens com o carro lotado, a grana contada, queremos uma família, sinto sua falta, até semana que vem, o apartamento, meu processo, “foge Mariana, eu te salvo! ”, somos uma família, nossa filha nascendo, somos uma família, não sabemos fazer isso, não conseguimos.
Perdi.
[continua]

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

QUANDO AS CONTAS NÃO BATEM

       Ficar sem dormir tem sido, para mim, o maior desafio da maternidade. Não que a Bárbara não durma bem, ela até dorme algumas horas seguidas a tarde e durante a noite acorda duas ou três vezes. O que acontece é que nossas contas não batem. Eu chego da faculdade as onze da noite, ela dorme, eu vou dormir meia noite, uma hora, ela acorda as duas para mamar, eu volto para a cama e as cinco lá está ela de novo acordada, mama e dorme. As oito ela está de pé e vamo que vamo!
        Nessa dança de deita, levanta, amamenta, toma água, volta, dorme, faz xixi eu não sei nem meu nome as duas da tarde. Nessa parte do dia, eu estou driblando os grãos de arroz que ela deixou pelo caminho depois do almoço. Quase todos os dias são assim, eles gostam de rotina e eu me viro em dez para fazer tudo igual parecer divertido para ela e para mim também.
      Eu ainda me admiro quando percebo o quanto essa entrega, de ser mãe, pode ser doce e ao mesmo tempo doída. Me pego pensando, enquanto amamento, sobre o futuro, o meu e o dela, e peço para o Universo que me permita ficar ao lado da minha filha o máximo, sei lá, dê seus pulos aí Sr. Cosmos, que eu quero ficar aqui. A vida que cresceu dentro de mim não me tirou nada, ela veio para esse mundo e me deixou cheia de vida. Mas é uma jornada difícil, porque é cansativa, solitária e cheia de inseguranças.

      Maternidade para mim é caos, interno e externo, mudança diária, saber agir, saber parar, rir e chorar, brigar e acalentar, me corrigir, não comer, comer o que não gosta, é dor e prazer, risos intensos, um quebra-cabeça que muda todos os dias e o coração que aguente, e ele aguenta porque o que dá liga nessa aparente bagunça é o amor. Ele se espalha por esses lugares onde nada faz sentido, onde o cansaço está impregnado e por mais que em alguns dias sejam sombrios e cheios de dúvidas o amor aparece e fecha as contas que não batem.

domingo, 9 de agosto de 2015

O PRIMEIRO DIA DOS PAIS

Denis se tornou pai assim que o teste de farmácia deu positivo e depois desse dia não hesitou. Foi o pai que vai à todas as consultas e exames médicos,  mas não só isso, participou de todas as decisões e soube me respeitar como mulher e mãe.
Foi comigo em busca de uma parteira e se abriu para o desconhecido.
Foi o pai que escolheu ele mesmo as roupinhas e que curtiu cada minuto dos famosos chás de bebê da Barbara.
Ele foi o pai que fazia carinho, conversava com a barriga e que teve a sabedoria e a paciência de esperar pela chegada da filha. E nesse dia, no dia em que nasceu Barbarinha ele estava lá,  ao nosso lado, firme, aparentando calma e uma felicidade que eu nunca havia visto em seu rosto.
Foi o pai que cuidou da mim durante o resguardo, sozinho, cozinhando, me dando comida na boca, trocando a filha e segurando todas as barras do pós parto. Que não se nega em participar ativamente de tudo que diz respeito à nossa pequena.
Enfim, Barbara tem sorte em ter o Denis como pai e a mim resta a grata tarefa de observar com o coração cheio de amor, pai e filha, crescendo juntos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O PARTO DA BARBARA - RELATO TARDIO

Hoje escrevo esse relato com minha filha dormindo ao lado, no nosso “quarto de bebê – escritório”. Ela é serena, como dizem ela é a mestra, ela me mostra o caminho e ilumina.
Minha gravidez foi querida, curtida e desejada, fui uma grávida ativa, fui para faculdade, fiz trilha, vi o mar, andei, corri, rebolei no show do Ney Matogrosso, enfim... foram 42 duas semanas de felicidade, de descobertas e de curas.
Na última semana prevista para ela nascer, comecei a ficar realmente ansiosa, não tinha dor, estava um pouco mais cansada e a bebê mexendo muito como sempre. Na sexta feira a noite, comecei a sentir algumas dores, eram suportáveis e eu estava muito feliz, avisei meu marido Denis e disse que ele podia dormir, pois eu queria ficar sozinha, sentei na sala e fiquei na bola, quicando, pensando e sentindo a dor. Por mais que me esforce, não me lembro o que pensei, sei que fiquei umas três horas ali, até que as dores foram ficando fracas e eu resolvi dormir, ali eu lembro do meu marido me abraçando e uma sensação de paz.
Acordei no sábado sem dor e resolvemos limpar a casa, fui fazendo tudo mais devagar e parando para ficar na bola, no final do dia estava faminta! Resolvemos jantar em uma pizzaria, eu estava sem dor e lembro que comentamos que provavelmente aquele seria o último jantar apenas nós dois, voltamos para casa e nada da tal da dor, fiz brigadeiro e esperei.
Desse momento em diante nada mais é muito claro, depois de tanto flertar com dor, esperar pela dor, falar da dor, ela apareceu e veio forte, rápida, me arrebatou, ali tudo ficou completamente diferente, a dor vinha e eu simplesmente não tinha controle, me vi numa espiral de dor, alívio, dor, alívio. 
Acredito que o Denis chamou a parteira Camila e a doula que a acompanha a Leidi e também minha doula de coração, minha xará Mariana. Não vi nada disso, a dor me comia por dentro e as meninas foram chegando uma a uma durante a madrugada e eu tenho a lembrança de que tudo era feito em silêncio, de maneira quase sagrada, lembro de pensar: parecemos bruxas, todas nós, e esse pensamento me confortou. 
Eu e a dor travamos uma batalha durante toda a madrugada, já tinha dilatação total, precisava fazer força, mas ela não vinha, a dor me atacava e eu resistia, dizia que estava com medo, massagem, carinho, cuidados, chá, homeopatia, a coragem não aparecia, dor, medo, dor, medo. A bolsa não tinha rompido. Tentava dormir, precisava dormir, pensava no porque estava acontecendo tudo tão depressa. Quando eu vi que lá fora já era dia, me bateu o desespero, não ia conseguir, queria uma cesárea e acabou-se me dei por vencida, pedi para ir ao hospital, eu queria uma cesárea!
E esse pedido me paralisou, travei, o medo me deixou congelada, tanto que esse relato de parto parou nesse ponto e somente hoje, quase seis meses depois eu consigo retomá-lo e finalmente descrever o que aconteceu a partir do meu pedido pela cesárea. Afinal o que tinha acontecido com a minha coragem¿ 
Logo em seguida comecei a me arrumar, bota roupa, acha um sapato, a dor ali me massacrando, eu ouvindo de longe o Denis e a Leide procurando roupinhas para a bebê. Eu não havia feito mala para levar no hospital, eu tinha certeza absoluta que a Barbara nasceria em casa. Desci três andares de escada, rápida e rasteira, queria me livrar daquela dor.
Me despedi da parteira e da Leide e segui para o hospital com o Denis e a minha doula Mariana. Não lembro de muita coisa do caminho, lembro de chegar e de ser colocada em uma cadeira de rodas, subi de elevador e me mandaram colocar a roupa de hospital, fiz tudo que me pediram de forma rápida e mecânica, entrei na sala da médica com todos os exames do pré-natal possíveis, apesar de tudo era uma gestação tranquila e absolutamente sem riscos. 
O que se seguiu depois que entrei nessa sala pode ser definido como violento. Ponto. Eram dois médicos, uma mulher e um homem, nem um pouco dispostos a me ajudar, era Carnaval sabe¿ Olharam os exames e a médica sentenciou: “sua filha vai nascer com problemas, onde já se viu esperar tanto tempo!!! Não vai fazer cesárea, vai ser normal porque sua filha é muito pequena. ”
Pediu para me examinar e eu senti que ela estava tentando alguma coisa estranha, senti muita dor e ali agradeci toda a informação que obtive durante a gravidez. A médica estava tentando romper a bolsa, eu reagi e não deixei.
Depois disso foram quase quatro horas de muita briga, muita ameaça (inclusive a médica disse que chamaria a polícia para mim), o Denis e a Mariana iam se revezando e tentavam a todo custo me acalmar e evitar que alguém fizesse algo comigo. Tenho certeza de que se não estivesse acompanhada fariam coisas piores comigo. Ali o pior era o bate-boca com os médicos e a dor, a maldita dor...
A bolsa não rompia e eu não deixei ninguém romper, não conseguia fazer força e estava muito cansada de brigar. O Denis desceu para comer alguma coisa e a Mari entrou, e ali do meu lado, segurando minha mão rolou a mais forte sintonia entre mulheres. A Mari me olhou nos olhos e disse para eu parar de brigar, ela dizia bem firme: “olha pra mim Ma, olha só pra mim! ” Eu fui esquecendo dos outros e fazendo força e me reconectando com meu corpo. Fui fazendo força até que a bolsa rompeu. Eu e a Mari vibramos com aquele fuzuê de água. Ali os médicos, enfermeiros, todos desapareceram, se tornaram borrões. Éramos eu e a Mari. Fui para o centro cirúrgico e deitada naquela cama medieval eu pari a Barbara, gritando, xingando, urrando, segurando nos ferros. Amparada pelo Denis de um lado e pela Mari do outro.
Ela veio para os meus braços linda, forte e vigorosa, não chorou, só me olhou nos olhos. Me senti mulher como nunca, fêmea, forte, cheia de vida e felicidade. Bárbara Luz nasceu numa tarde de domingo de Carnaval, 15 de fevereiro de 2015, depois de quase 3 dias de trabalho de parto. 
 Ali eu tive certeza de que tinha feito a coisa certa. Os motivos do meu medo ou da minha decisão em ir ao hospital eu acho que nunca vou saber, sei lá a gente faz planos, mas eles são o que são, apenas planos. A vida mesmo é bem mais que isso, a vida é a gargalhada da minha filha.