quarta-feira, 5 de outubro de 2016

QUANDO AS CONTAS NÃO BATEM

       Ficar sem dormir tem sido, para mim, o maior desafio da maternidade. Não que a Bárbara não durma bem, ela até dorme algumas horas seguidas a tarde e durante a noite acorda duas ou três vezes. O que acontece é que nossas contas não batem. Eu chego da faculdade as onze da noite, ela dorme, eu vou dormir meia noite, uma hora, ela acorda as duas para mamar, eu volto para a cama e as cinco lá está ela de novo acordada, mama e dorme. As oito ela está de pé e vamo que vamo!
        Nessa dança de deita, levanta, amamenta, toma água, volta, dorme, faz xixi eu não sei nem meu nome as duas da tarde. Nessa parte do dia, eu estou driblando os grãos de arroz que ela deixou pelo caminho depois do almoço. Quase todos os dias são assim, eles gostam de rotina e eu me viro em dez para fazer tudo igual parecer divertido para ela e para mim também.
      Eu ainda me admiro quando percebo o quanto essa entrega, de ser mãe, pode ser doce e ao mesmo tempo doída. Me pego pensando, enquanto amamento, sobre o futuro, o meu e o dela, e peço para o Universo que me permita ficar ao lado da minha filha o máximo, sei lá, dê seus pulos aí Sr. Cosmos, que eu quero ficar aqui. A vida que cresceu dentro de mim não me tirou nada, ela veio para esse mundo e me deixou cheia de vida. Mas é uma jornada difícil, porque é cansativa, solitária e cheia de inseguranças.

      Maternidade para mim é caos, interno e externo, mudança diária, saber agir, saber parar, rir e chorar, brigar e acalentar, me corrigir, não comer, comer o que não gosta, é dor e prazer, risos intensos, um quebra-cabeça que muda todos os dias e o coração que aguente, e ele aguenta porque o que dá liga nessa aparente bagunça é o amor. Ele se espalha por esses lugares onde nada faz sentido, onde o cansaço está impregnado e por mais que em alguns dias sejam sombrios e cheios de dúvidas o amor aparece e fecha as contas que não batem.

domingo, 9 de agosto de 2015

O PRIMEIRO DIA DOS PAIS

Denis se tornou pai assim que o teste de farmácia deu positivo e depois desse dia não hesitou. Foi o pai que vai à todas as consultas e exames médicos,  mas não só isso, participou de todas as decisões e soube me respeitar como mulher e mãe.
Foi comigo em busca de uma parteira e se abriu para o desconhecido.
Foi o pai que escolheu ele mesmo as roupinhas e que curtiu cada minuto dos famosos chás de bebê da Barbara.
Ele foi o pai que fazia carinho, conversava com a barriga e que teve a sabedoria e a paciência de esperar pela chegada da filha. E nesse dia, no dia em que nasceu Barbarinha ele estava lá,  ao nosso lado, firme, aparentando calma e uma felicidade que eu nunca havia visto em seu rosto.
Foi o pai que cuidou da mim durante o resguardo, sozinho, cozinhando, me dando comida na boca, trocando a filha e segurando todas as barras do pós parto. Que não se nega em participar ativamente de tudo que diz respeito à nossa pequena.
Enfim, Barbara tem sorte em ter o Denis como pai e a mim resta a grata tarefa de observar com o coração cheio de amor, pai e filha, crescendo juntos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O PARTO DA BARBARA - RELATO TARDIO

Hoje escrevo esse relato com minha filha dormindo ao lado, no nosso “quarto de bebê – escritório”. Ela é serena, como dizem ela é a mestra, ela me mostra o caminho e ilumina.
Minha gravidez foi querida, curtida e desejada, fui uma grávida ativa, fui para faculdade, fiz trilha, vi o mar, andei, corri, rebolei no show do Ney Matogrosso, enfim... foram 42 duas semanas de felicidade, de descobertas e de curas.
Na última semana prevista para ela nascer, comecei a ficar realmente ansiosa, não tinha dor, estava um pouco mais cansada e a bebê mexendo muito como sempre. Na sexta feira a noite, comecei a sentir algumas dores, eram suportáveis e eu estava muito feliz, avisei meu marido Denis e disse que ele podia dormir, pois eu queria ficar sozinha, sentei na sala e fiquei na bola, quicando, pensando e sentindo a dor. Por mais que me esforce, não me lembro o que pensei, sei que fiquei umas três horas ali, até que as dores foram ficando fracas e eu resolvi dormir, ali eu lembro do meu marido me abraçando e uma sensação de paz.
Acordei no sábado sem dor e resolvemos limpar a casa, fui fazendo tudo mais devagar e parando para ficar na bola, no final do dia estava faminta! Resolvemos jantar em uma pizzaria, eu estava sem dor e lembro que comentamos que provavelmente aquele seria o último jantar apenas nós dois, voltamos para casa e nada da tal da dor, fiz brigadeiro e esperei.
Desse momento em diante nada mais é muito claro, depois de tanto flertar com dor, esperar pela dor, falar da dor, ela apareceu e veio forte, rápida, me arrebatou, ali tudo ficou completamente diferente, a dor vinha e eu simplesmente não tinha controle, me vi numa espiral de dor, alívio, dor, alívio. 
Acredito que o Denis chamou a parteira Camila e a doula que a acompanha a Leidi e também minha doula de coração, minha xará Mariana. Não vi nada disso, a dor me comia por dentro e as meninas foram chegando uma a uma durante a madrugada e eu tenho a lembrança de que tudo era feito em silêncio, de maneira quase sagrada, lembro de pensar: parecemos bruxas, todas nós, e esse pensamento me confortou. 
Eu e a dor travamos uma batalha durante toda a madrugada, já tinha dilatação total, precisava fazer força, mas ela não vinha, a dor me atacava e eu resistia, dizia que estava com medo, massagem, carinho, cuidados, chá, homeopatia, a coragem não aparecia, dor, medo, dor, medo. A bolsa não tinha rompido. Tentava dormir, precisava dormir, pensava no porque estava acontecendo tudo tão depressa. Quando eu vi que lá fora já era dia, me bateu o desespero, não ia conseguir, queria uma cesárea e acabou-se me dei por vencida, pedi para ir ao hospital, eu queria uma cesárea!
E esse pedido me paralisou, travei, o medo me deixou congelada, tanto que esse relato de parto parou nesse ponto e somente hoje, quase seis meses depois eu consigo retomá-lo e finalmente descrever o que aconteceu a partir do meu pedido pela cesárea. Afinal o que tinha acontecido com a minha coragem¿ 
Logo em seguida comecei a me arrumar, bota roupa, acha um sapato, a dor ali me massacrando, eu ouvindo de longe o Denis e a Leide procurando roupinhas para a bebê. Eu não havia feito mala para levar no hospital, eu tinha certeza absoluta que a Barbara nasceria em casa. Desci três andares de escada, rápida e rasteira, queria me livrar daquela dor.
Me despedi da parteira e da Leide e segui para o hospital com o Denis e a minha doula Mariana. Não lembro de muita coisa do caminho, lembro de chegar e de ser colocada em uma cadeira de rodas, subi de elevador e me mandaram colocar a roupa de hospital, fiz tudo que me pediram de forma rápida e mecânica, entrei na sala da médica com todos os exames do pré-natal possíveis, apesar de tudo era uma gestação tranquila e absolutamente sem riscos. 
O que se seguiu depois que entrei nessa sala pode ser definido como violento. Ponto. Eram dois médicos, uma mulher e um homem, nem um pouco dispostos a me ajudar, era Carnaval sabe¿ Olharam os exames e a médica sentenciou: “sua filha vai nascer com problemas, onde já se viu esperar tanto tempo!!! Não vai fazer cesárea, vai ser normal porque sua filha é muito pequena. ”
Pediu para me examinar e eu senti que ela estava tentando alguma coisa estranha, senti muita dor e ali agradeci toda a informação que obtive durante a gravidez. A médica estava tentando romper a bolsa, eu reagi e não deixei.
Depois disso foram quase quatro horas de muita briga, muita ameaça (inclusive a médica disse que chamaria a polícia para mim), o Denis e a Mariana iam se revezando e tentavam a todo custo me acalmar e evitar que alguém fizesse algo comigo. Tenho certeza de que se não estivesse acompanhada fariam coisas piores comigo. Ali o pior era o bate-boca com os médicos e a dor, a maldita dor...
A bolsa não rompia e eu não deixei ninguém romper, não conseguia fazer força e estava muito cansada de brigar. O Denis desceu para comer alguma coisa e a Mari entrou, e ali do meu lado, segurando minha mão rolou a mais forte sintonia entre mulheres. A Mari me olhou nos olhos e disse para eu parar de brigar, ela dizia bem firme: “olha pra mim Ma, olha só pra mim! ” Eu fui esquecendo dos outros e fazendo força e me reconectando com meu corpo. Fui fazendo força até que a bolsa rompeu. Eu e a Mari vibramos com aquele fuzuê de água. Ali os médicos, enfermeiros, todos desapareceram, se tornaram borrões. Éramos eu e a Mari. Fui para o centro cirúrgico e deitada naquela cama medieval eu pari a Barbara, gritando, xingando, urrando, segurando nos ferros. Amparada pelo Denis de um lado e pela Mari do outro.
Ela veio para os meus braços linda, forte e vigorosa, não chorou, só me olhou nos olhos. Me senti mulher como nunca, fêmea, forte, cheia de vida e felicidade. Bárbara Luz nasceu numa tarde de domingo de Carnaval, 15 de fevereiro de 2015, depois de quase 3 dias de trabalho de parto. 
 Ali eu tive certeza de que tinha feito a coisa certa. Os motivos do meu medo ou da minha decisão em ir ao hospital eu acho que nunca vou saber, sei lá a gente faz planos, mas eles são o que são, apenas planos. A vida mesmo é bem mais que isso, a vida é a gargalhada da minha filha.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

GESTANDO PENSAMENTOS

Os períodos em que não escrevo eu sinto como se estivesse dentro de um casulo, onde não existe som, não existe forma, não existe cor, apenas pensamentos recorrentes e pensamentos novos, letras, textos, ideias, preto e branco, meus sentimentos em looping. 
Não é bom, não é tão ruim como parece, apenas necessário. Os pensamentos crescem dentro de mim, tomam forma, fazem sentido e como hoje, saem pelas minhas mãos.
Qualquer semelhança com a minha condição de gestante só deixou tudo isso mais claro.
Agora grávida, agora diferente de tudo, mas ainda a Mariana de sempre, talvez mais orgulhosa pela cria que vai chegar, talvez mais prudente, sempre otimista e hoje com a certeza de que minha história não está suspensa no tempo, ela está sendo escrita de outra maneira.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

UMA MANHÃ

Você acorda de madrugada com a cabeça cheia de sonhos, em pouco tempo volta para a cama cheio de planos, porque você tem o dom de transformar um pensamento em realidade e eu te amo por isso.
Na cama com o coração cheio de felicidade e a vida cheia de planos você me abraça, diz que ama, celebra o quanto está feliz pelo nosso filho. 
Eu adormeço um pouco e quando percebo você já se levantou novamente, a perna dói, mas eu sei que hoje tem mais coisas que não te deixam dormir: nosso futuro. 
Você me traz café e eu me sinto uma mulher de sorte. Eu vejo nos seus olhos a empolgação por novos projetos, conversamos, vida nova chegando e o futuro se esfregando na nossa frente. E eu sinto que fiz a coisa certa.
Você vai trabalhar e eu te levo até a porta, que é pra dar sorte e recomendações.
A casa fica com o seu perfume enquanto nossos planos refletem por todas as paredes com o sol.
Me enchendo de vida.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

CARTA AO MEU BEBÊ OU MAMÃE É JORNALISTA, ACOSTUME-SE!


   Filho, mesmo com o pouco tempo que você está aqui dentro de mim você já deve ter percebido que a coisa vai ser intensa! Vai sim! Prometo que será colorida e barulhenta também. No mais, sinto não poder prometer outras coisas. 
      Sinto não ter mudado e acordado mais santificada, cercada de luz, sabedoria e amor. Mamãe continua egoísta e mundana e ao mesmo tempo que checa a barriga com orgulho olha a bunda com desesperança. Mamãe esquece que você não gosta de café preto pela manhã (nem do limão, da vitamina e da água, digamos que você anda exigente) e você me castiga com um passeio no barco dos enjoos matinais. Ainda esqueço de você e quase caio da cadeira! Mas fique frio, saiba que sua mãe tem anjos da guarda mais eficientes que a guarda britânica.
    Desculpe por eu não saber lidar com tanta vida no meu mundo, tenho medo de não conseguir abraçar tudo que você vai me trazer. Mas o engraçado pequeno, é que foram dias intensos e eu suspeito que seremos uma boa dupla agora e um trio matador em breve.
     Venha, pode vir! Essa é a certeza: eu vou te trazer ao mundo porque você foi querido e comemorado ao estilo dos seus pais (que você irá conhecer em breve e se envergonhar por toda a vida).

Vou tentar comer mais frutas e maneirar no refri se você deixar meu estômago em paz!
Feito?
Com amor da sua mãe.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SER FELIZ EM DEZEMBRO

Essa semana ouvi um cara dizendo que o Natal dele tinha sido um típico "Natal da família Souza". Tirando o fato de que essa frase soou como frase de caras coxinhas (e ele era um mega coxa), eu sei o que ele quer dizer, todos nós sabemos como é um típico Natal com a família x ou y.
Todos de alguma forma, nesse dezembrão monstro de calor, olhamos um pouco para dentro de nossas vidas, de nossas casas e olhamos as raízes, de onde diabos viemos, porque somos assim ou de quem puxamos esse ou aquele traço.
Tenho 34 anos, não tenho filhos, não tenho pai, nem mãe e o que poderia ser motivo de pesar esse ano especificamente me trouxe um sentimento maravilhoso de poder explorar quem eu sou de verdade, de olhar para a minha família sem interferência nenhuma. Eu os amo porque amo, eu não tenho nada que me ligue a eles, sou livre e sinto que estar com eles é a coisa certa a se fazer, simples assim.
Não tenho grandes ressentimentos com os vivos tampouco com os mortos, não me ressinto com a vida por ter me tirado coisas importantes cedo demais, não me sinto sozinha por um minuto que seja e principalmente não me envergonho de quem eu fui e me orgulho de quem me tornei.
Sempre senti uma felicidade imensa nessas épocas de festas, o lance de comemorar fica impregnado em mim e eu sou só esperança. Eu ganhei muito mais que perdi nessa vida.
E nesse ano eu só posso ser grata aos meus pais, por cada característica, por cada gesto, por cada hábito que herdei deles, foi tudo um sucesso e que ninguém se preocupe, porque amadureci e aceito de bom grado tudo que por ventura acontecer. 
Amo meus irmãos, amo meus sobrinhos, meus primos, tios, agregados, madrastas, amigos, visitantes e passantes. Qualquer coisa diferente disso seria de uma burrice imensa.
Hoje o grande barato é vida longa e cercada de gente que a gente ama. Aí que mora a graça da coisa.
O resto é perfumaria.